O mendigo e o hotel 5 estrelas

Um velho mendigo estava na calçada da rua pedindo esmolas, quando um homem bonito, bem vestido, que vinha andando no mesmo sentido dos carros, parou bruscamente sua passada e, na frente do mendigo, exclamou para os quatro cantos do mundo:

- se eu cheguei até aqui, qualquer um consegue! Eu sei que você consegue!!

E o mendigo olhou para um lado, olhou para o outro, e se perguntou - "aqui onde?" - Havia apenas ratos passando pelo bueiro onde escorria a lama debaixo dos seus pés, e um poste cheio de rachaduras de concreto e pixo, que mal iluminava os cabelos grisalhos do velho, não mais que a própria luz da lua.

Mas o homem insistia:

- Se eu cheguei até aqui, você também consegue!

Aqui onde, céus?! Quando foi que a rua mais nojenta da cidade se tornou, aos olhos daquele homem, uma suíte 5 estrelas de um hotel de luxo? - O velho mendigo se questionava, como se quisesse ver o que aquele homem estava vendo, e sentir o que aquele homem sentia em sua pele cor-de-rosa, seu coração pulsando com tanto ímpeto e convicção. Tentava, em seu íntimo, descartar a hipótese de que aquele homem estava louco, transtornado ou completamente fora de si... e que ainda poderia obter ajuda dele.

Ouviu-se então, no horizonte distante da rua escura, uma sirene e suas pequenas luzes vermelhas e brancas piscando no fim da madrugada. Em poucos segundos essas luzes chegaram até onde eles estavam, estourando os ouvidos e a atenção do velho e, passando rasante, deixou apenas um rastro de vento e emergência para trás, sem tempo a perder.

O velho mendigo nunca se acostumou a ter o sono entrecortado pelo barulho e pelas sirenes de uma cidade grande. O homem bonito então virou-se na direção da sirene, que já se engravecia pela distância, olhou-a atentamente, voltou-se para o velho mendigo e disse:

- Um dia iremos todos adoecer e morrer... então viva cada dia como se fosse o último!

"Realmente, eu sou hipertenso, diabético, e não tenho mais o dedão do pé direito, que fora amputado quando eu dei entrada no pronto-socorro há alguns anos. Mas eu não já estou vivo para esse cara? Sei bem como é adoecer... agora morrer, ninguém sabe. Até que não se esteja mais vivo. Ou vivendo. Sei lá."

Assim o homem que era bonito foi-se andando pela rua de mão única, deixando no ambiente apenas o silêncio outrora suspenso pela sua farfalhosa voz e a sirene da ambulância.

O mendigo ficou então sozinho, refletindo sobre o que tinha ouvido. Pegou sua muleta de plástico e saiu caminhando pela rua, na contramão dos que passavam de carro. Ele percebeu que a morte não iria lhe chegar tão cedo, que havia vários homens pobres de espírito tentando lhe ditar como viver e como gastar seu tempo, tempo esse que o velho mendigo trocou pelo dinheiro das esmolas e depois trocou as esmolas por um pouco de guaraná, pão e água ardente. E subiu as escadas do hotel onde estava hospedado, deitou-se ao lado de sua radiante esposa, que dormia com um belíssimo vestido de pijama cor lilás, de linho, feito à mão, com um bordado estonteante, que valorizava as curvas do seu corpo, e beijou-lhe num boa noite, dito próximo ao ouvido dela, e deitou-se olhando para o teto e pensou:

- quão pobres são os homens que tudo que têm a dar são palavras ao vento, barulho e ilusões, mas nunca dinheiro.

A sua cama de papelão estava particularmente macia naquela noite.

trainspotting personagem principal fumando -->

Receba novos textos por email

Comentários